Ser pai de um adolescente

Última revisão deste tema: 22/02/2015

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É frequente ouvir-se na sabedoria popular que “filhos criados são trabalhos dobrados” e na verdade muitos pais temem os “terríveis anos da adolescência”.

 

A adolescência é definida pela Organização Mundial de Saúde como o período compreendido entre os 10 e os 19 anos de idade. Trata-se de um período em que ocorrem mudanças a nível físico, psicológico e social, muito importantes na vida de um indivíduo. A adolescência marca a transição da infância para a idade adulta e a função dos pais será auxiliar esta evolução da melhor forma possível.

 

 

O normal na adolescência

 

Durante a adolescência vive-se um processo de transformação corporal, psicológica e social de características peculiares.

 

A puberdade determina uma sucessão mais ou menos previsível de modificações de caráter biológico, existindo, contudo, uma larga margem de variabilidade temporal no desenvolver destes fenómenos.

 

- Na esfera psicológica, desenvolve-se a capacidade de elaborar o pensamento abstrato, de projetar o futuro, de melhorar progressivamente o autocontrolo e de acentuar a orientação para os outros. Durante a adolescência procede-se à redefinição da imagem corporal, torna-se mais clara a orientação do desejo sexual, estabelece-se um quadro de valores próprios e um código ético pessoal.

 

- Do ponto de vista social, a relação de dependência estreita da família passa a ser pontuada por outras referências, cada vez mais significativas, centradas no grupo de pares e em outros adultos fora da família. À medida que se deparam com novos desafios, experimentam-se novos comportamentos, mais ou menos gratificantes, e assumem-se novas responsabilidades.

 

- No processo de individuação durante a adolescência são empreendidas novas tarefas de exploração, descoberta e aprendizagem. Nesta fase da vida testam-se novas potencialidades e procura conhecer-se os limites pessoais no domínio biológico, psicoafectivo e social. Neste percurso complexo de aprendizagem, vivem-se situações que podem representar, de alguma forma, risco pessoal. São os chamados “Comportamentos de Risco”, que podem ser encarados numa dupla perspetiva:

               - Potenciam o crescimento e o desenvolvimento pessoal e estimulam a autonomia;

               - Podem gerar danos para a saúde dos adolescentes a curto, a médio ou a longo prazo.

 

É função dos pais estimular e apoiar os adolescentes a assumirem, de forma progressiva, o controlo e a tomada de decisões sobre a sua própria vida

 

 

 

Compreender a adolescência - os conceitos básicos

 

Muitas vezes é uma série de equívocos sobre a adolescência que torna esta época da vida tão difícil para pais e filhos.

 

Alguns pais desvalorizam todas as transformações que a família tem experimentado no século XXI e a redefinição dos papéis na família e na sociedade. Insistem na velha crença de que, para compreender o que se passa com a nova geração, é preciso constantemente lembrar a sua própria adolescência. Porém, os adolescentes de hoje nada tem a ver com os adolescentes do tempo dos seus pais, não só pelas modificações das famílias mas também pelo que significa ser adolescente hoje. Os jovens de agora são mais capazes de discutir tudo e enfrentar os problemas, mas ao mesmo tempo o aumento da escolaridade fá-los estar mais tempo sob a dependência dos pais. Vive-se muito mais o momento, os tempos livres tem outra dimensão, a música e a noite ganharam grande importância. Esquecer isto e insistir na célebre frase “no meu tempo...” é contribuir para dificultar o diálogo entre pais e filhos, porque na realidade os tempos são bem diferentes e por isso não passíveis de comparação.

 

É errado também insistir na ideia de que pais e filhos devem estar de acordo e ter a mesma visão do mundo. A separação de gerações é um dos traços essenciais da família saudável, pelo que é desejável que numa família haja opiniões diferentes e confrontos de ideias. À nova geração compete inovar, lançar ideias criativas, contestar; à geração dos pais compete estabelecer limites, esclarecer e também criticar. Uma família evolui se não permanecer isolada, se conseguir estar aberta ao exterior e receber de fora e de dentro os estímulos necessários para poder mudar.

 

Torna-se importante estabelecer a diferenciação entre o “normal” e o “patológico” (doença) na adolescência. Anna Freud escrevia em 1958 que “ser normal durante a adolescência é, em si mesmo, anormal”. Ocorrem várias evoluções no comportamento psicossocial juvenil, que oscilam entre um comportamento turbulento (minoritário) e uma evolução para a idade adulta sem problemas significativos. Podem surgir algumas situações de perturbação passageira, por vezes intensa, mas que não afeta o processo de autonomia que mais tarde vai conduzir à idade adulta. Torna-se fundamental uma postura atenta aos problemas do quotidiano juvenil, distinguir o normal do patológico e reservar a intervenção de técnicos (médicos e psicólogos) apenas para os casos claramente patológicos (ex.: toxicodependência, alcoolismo, tentativas de suicídio, depressões e psicoses).

 

Os pais necessitam entender que durante a adolescência os filhos deixam de “pertencer” aos pais. Na adolescência os filhos são mais dos namorados, dos amigos, do grupo, do que da família. Os filhos, a partir da adolescência, fazem novos investimentos, muitos deles centrados fora da família, o que não quer dizer que os pais não tenham lugar. O seu papel agora é o de estar atentos, de mobilizar sem dirigir, de apoiar nos fracassos e incentivar nos êxitos, ou seja, estar com eles e respeitar cada vez mais a sua individualização.

 

No equilíbrio difícil que caracteriza a relação pais-adolescentes existem momentos da maior importância que podem condicionar a interação futura entre gerações. Não é possível descrever uma espécie de receita onde figurem os comportamentos-resposta que os pais devem ter nestes momentos, contudo, é importante lembrar que o que os pais devem fazer é não ter pressa, mostrar disponibilidade, propor uma conversa calma e esperar que o adolescente vá ter consigo.

 

É de evitar o desenvolvimento na família daquilo que na gíria médica se denomina de nagging, ou seja, o ralhar constante que leva a respostas simétricas dos jovens, fazendo subir a discussão familiar a níveis elevados de discórdia e protestos. O nagging nada tem a ver com as chamadas de atenção que são absolutamente necessárias e que fazem parte do processo educativo. Os pais não podem impedir-se de dizer o que pensam quando discordam dos filhos, já que pontos de vista diferentes são estimulantes numa família, desde que enquadrados numa atmosfera de afeto e confiança mútuos.

 

 

 

O que podem os pais fazer

 

1. Fale com o seu filho adolescente cedo e frequentemente, mas sem sobrecarregar de informação. Responda às perguntas do seu filho. Antecipe-se - aborde a questão da menstruação ou dos sonhos molhados antes destes acontecerem. Se nota que o seu filho começa a prestar maior atenção ao seu corpo ou manifesta interesse pela sexualidade, comece com perguntas abertas como “estás a notar alterações no teu corpo?”, “estás a ter sensações diferentes do habitual sem saber o porquê?”.

 

2. Coloque-se no lugar da criança/adolescente. Tranquilize o seu filho. É normal nesta fase de transição num momento sentir-se “adulto” capaz de tomar as suas decisões mas logo no instante a seguir sentir-se impreparado ou imaturo.

 

3. Seja criterioso nas discussões. É frequente o adolescente ter atitudes como mudar de visual ou pintar as unhas ou outras coisas feitas quase como que de propósito para chocar os pais. É preferível evitar discussões sucessivas sobre pequenos problemas temporários e inofensivos (que muitas vezes geram uma espiral decadente de hostilização e relacionamento conflituoso) e reservá-los para os problemas que realmente importam: álcool, tabaco, drogas ou alterações permanentes na aparência. E não se esqueça do ponto 1, fale sobre estes assuntos ainda antes do seu filho ser aliciado por eles.

 

4. Defina expectativas razoáveis em relação a notas escolares, regras da casa (horários e tarefas domésticas) e comportamento. Os adolescentes normalmente aceitam o facto dos pais se interessarem por eles ao ponto de definirem expectativas. Sem estas, o adolescente vai sentir que não quer saber dele/dela. Mas evite colocar expectativas irrealistas ou demasiado ambiciosas.

 

5. Mantenha-se informado. Saiba quem são os amigos do seu filho e para onde o seu filho sai. Conhecer e falar com os pais dos melhores amigos do seu filho ajudará a manter-se a par das atividades do seu filho de uma forma indireta, sem sobrecarregar o seu filho com perguntas.

 

6. Conheça os sinais de alarme (ver quadro ao lado).

 

7. Respeite a privacidade. Até prova em contrário, mantenha uma relação de confiança com o seu filho. Saiba os aspetos fundamentais (com quem vai, para onde vai, o que vai fazer) mas não será necessário saber todos os detalhes. Diga ao seu filho que confia nele mas que se essa relação de confiança for quebrada, terá menos liberdade até voltar a ser restabelecida.

 

8. Monitorize a televisão e internet. Sobretudo no início da adolescência, o acesso deve ser restrito a áreas públicas da casa e não deve ultrapassar um tempo razoável definido nem interferir com a hora de dormir. Deve ser evitada a televisão no quarto.

 

9. Regras razoáveis e não demasiado rígidas. Se o adolescente cumpre o que é acordado, poderá flexibilizar algumas regras à medida que este cresce, mantendo a relação de confiança mútua. Um adolescente precisa pelo menos de 8-9h de sono todos os dias, nesta regra não deve ceder.

 

 

REFERÊNCIAS

 

Secções "O normal da adolescência", "Compreender a adolescência - conceitos básicos" e "Exemplos práticos" baseadas no livro “Inventem-se Novos Pais” de Daniel Sampaio

Sistema uptodate

Sítio www.kidshealth.com

 

Os principais problemas na adolescência a evitar!

As principais causas de morbilidade e mortalidade na adolescência são:

 

- Abuso do álcool

- Tabagismo

- Consumo de drogas

- Obesidade

- Lesões não intencionais, como os acidentes rodoviários ou outros acidentes

- Lesões intencionais, como o suicídio e o homicídio

- Gravidez não desejada

- Problemas do comportamento alimentar (anorexia, bulimia)

- Doenças sexualmente transmissíveis

 

O que é comum em todos estes problemas é que têm uma origem no comportamento do adolescente e, por isso, potencialmente alvo de prevenção.

Os sinais de alarme

É suspeita a presença de um ou mais dos seguintes sinais de alarme:

 

- Perda ou aumento súbito de peso

- Problemas de sono

- Mudanças drásticas e súbitas na personalidade

- Alterações abruptas do grupo de amigos

- Faltas sucessivas às aulas

- Descida do rendimento escolar

- Falar (mesmo que em anedotas) sobre suicídio, ou indícios deste

- Isolamento sistemático

- Sinais do uso regular de tabaco, álcool ou drogas ilícitas

- Comportamento agressivo/violento regular

- Deixar de cumprir qualquer regra em casa

 

Procure ajuda no seio familiar e em outros profissionais!

Alguns exemplos práticos para evitar conflitos desnecessários

 

“Acordar ou deixar dormir?”

São frequentes as guerrilhas matinais no que respeita ao levantar da cama. É recomendável que exista uma coisa simples no quarto de cada adolescente chamada relógio despertador. É fundamental que a hora de acordar seja negociada no dia anterior e seja da responsabilidade do adolescente a sua colocação em prática.

 

“Faltas às aulas”

É importante que os pais tentem perceber o que motiva as ausências dos filhos da escola. Perante este problema é importante confrontar o adolescente com as faltas ocorridas, primeiro sem crítica, apenas com espanto e desejo de cooperar. É necessário ser tolerante com uma falta ocasional, mas firme e convicto com uma sucessão de faltas. O desejo de compreender o que está mal, o que se passa de errado com o adolescente é a única forma de ultrapassar este problema.

 

“Refeições”

Em muitas famílias a intimidade perdeu-se, a capacidade de exprimir sentimentos é cada vez menor e a possibilidade de partilhar os bons e os maus momentos é cada vez mais remota. A refeição em família é um espaço por excelência para falar uns com os outros, saber como foi o dia de cada um e conviver. É muito importante que a família jante junta sempre que possível, a uma hora previamente combinada que contemple os horários de todos.

 

“Saídas à noite”

Para o adolescente de hoje, sair à noite por algum tempo e, sobretudo, ir pela primeira vez a uma discoteca representa um importante passo para a idade adulta. É importante que os pais saibam quem são os amigos do adolescente, os locais que o grupo frequenta e quais são os interesses predominantes. Quando as coisas são faladas em casa não é grave uma noitada semanal, se nas outras noites é possível estar em família ou combinar outro programa.

Os pais devem compreender que a saída noturna não é necessariamente uma atividade contra os pais, não faz parte de um processo de confronto e oposição entre filhos e pais. Se os pais aceitarem as saídas noturnas como qualquer coisa passageira e importante para os filhos, poderão falar do assunto de uma forma desdramatizada.

 

“Namoros”

Uma relação afetiva faz parte de um percurso normal da adolescência. Na fase média desta etapa do desenvolvimento, há relações sem compromisso e sem ideias feitas, que mais tarde se cristalizam num entendimento amoroso mais profundo: o “curtir” vai assim sendo substituído pelo “andar com”, onde a fidelidade e a entrega afetivo-sexual profunda são a regra.

Uma relação afetivo-sexual profunda estrutura o crescimento adolescente e é uma referência positiva para toda a família.