Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA)

Última revisão deste tema: 18/12/2015

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O que é?

A PHDA é uma perturbação de origem neurobiológica que se caracteriza por um grau de desatenção inapropriado para a idade, com ou sem hiperatividade e impulsividade, presente em diferentes contextos e que perturba o desempenho pessoal. [1]

Há aqui duas notas importantes. A tradução para português inverteu a ordem das palavras (em inglês é "Attention-deficit/hyperactivity disorder" e inicialmente era designada apenas de “Attention Deficit Disorder”) o que pode dar origem a uma desvalorização do componente da atenção que sempre foi nuclear nesta patologia. Por outro lado, para diagnosticar alguém com PHDA é necessário que os sinais e sintomas aconteçam em vários locais (não apenas em casa) e que isso perturbe o seu rendimento/desempenho.

 

Qual é a sua prevalência?

A Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders 5 (DSM 5) estima que 5% das crianças e jovens e 2,5% dos adultos apresentem PHDA.[2]

Em Portugal, o Estudo Epidemiológico de Saúde Mental de 2013 encontrou uma prevalência de 5% (dos 0 aos 49 anos de idade). [3]

A PHDA afeta mais o sexo masculino do que o sexo feminino (entre 2-8 vezes mais segundo os estudos). No entanto, rapazes e raparigas tendem a expressar a doença de forma diferente.[4-6] Em média, os rapazes tendem a expressar mais sintomas de hiperatividade/impulsividade e as raparigas mais os sintomas de desatenção e problemas do foro intelectual. Estas diferenças podem originar subdiagnóstico da doença nas raparigas já que os sintomas de desatenção são menos exteriorizados que os de hiperatividade.

 

Qual a causa?

Atualmente é globalmente aceite que a genética é um fator preponderante.[1] Existem vários genes que podem estar envolvidos. Porém, alguns fatores ambientais ou sociais (como o baixo peso à nascença, prematuridade, certas toxinas, disfunção familiar ou marital) parecem estar também associados, ainda que em menor grau.

 

Quando se desenvolve?

A PHDA surge, por definição, antes dos 12 anos e cerca de 60% dos casos permanecem na idade adulta.[2]

 

 

Quando e como suspeitar?

Deve ser suspeita de PHDA qualquer criança que, em idade escolar, tiver as seguintes características:

- Desatenção

- Hiperatividade/impulsividade

- Mau rendimento escolar

- Problemas de comportamento

 

 

Como se diagnostica?

O diagnóstico é complexo. Pode ser suspeitado pelos pais e/ou médico assistente mas deve ser sempre confirmado (ou não) por um pediatra do desenvolvimento. Para o fazer, é necessário não só informação obtida diretamente dos pais mas também de outros profissionais como os professores da criança. Existem escalas e questionários próprios que contribuem para o correto diagnóstico.

Os critérios de diagnóstico estão definidos na Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders 5 (DSM 5) [2] que agrupa os sinais e sintomas em 2 grupos (A e B) como podem ver à frente. Se, ao lerem, sentirem que o vosso filho apresenta alguma das características, em vários locais, e que o seu desempenho está afetado, reportem ao vosso médico assistente.

 

A. Desatenção (6 ou mais durante pelo menos 6 meses):

       1. Erros por descuido, sem atenção aos pormenores

       2. Dificuldade em manter/sustentar a atenção

       3. Parece não ouvir (“aluado”)

       4. Não segue instruções, não termina tarefas

      5. Dificuldade em organizar tarefas ou atividades

      6. Evita tarefas que requeiram esforço mental continuado

      7. Perde “tudo”

      8. Distrai-se facilmente com estímulos externos

      9. Esquece-se de fazer atividades/compromissos quotidianos

 

B. Hiperatividade e impulsividade (6 ou mais durante pelo menos 6 meses):

      1. Mexe os pés e as mãos, mexe-se quando sentado

      2. Não é capaz de se manter sentado

      3. Corre e salta excessivamente (ou sentimento de inquietude)

      4. Dificuldade em participar de forma calma em jogos e atividades

     5. Energia “ilimitada” como que “com motor”

     6. Fala demais

     7. Precipitado a responder ou atuar

     8. Dificuldade em esperar pela sua vez

     9. Interrompe, intromete-se

 

C. Alguns sinais e sintomas presentes antes dos 12 anos

D. Sintomas nucleares presentes em 2 ou mais locais (por exemplo, escola, casa, trabalho, amigos)

E. Provas evidentes de repercussão significativa no funcionamento escolar, familiar e social

F. Sintomas não ocorrem exclusivamente na presença de outra doença mental

 

Existem 3 formas de apresentação possíveis:

- Apresentação combinada: quando há 6 ou mais critérios de cada um dos grupos A e B (cumprindo critérios C, D, E e F)

-  Apresentação predominantemente desatenta: 6 ou mais critérios do grupo A e menos de 6 do grupo B (cumprindo critérios C, D, E e F)

- Apresentação predominante hiperativa/impulsiva: 6 ou mais critérios do grupo B e menos de 6 do grupo A (cumprindo critérios C, D, E e F)

 

A PHDA associa-se a outros problemas?

Os estudos mostram que sim, e de forma significativa. Cerca de 69% dos indivíduos com PHDA têm outros problemas. [1,7] Os mais frequentes são a perturbação da oposição (40% dos casos), perturbação da ansiedade (34%), perturbação da conduta (14%), tiques (11%) e perturbações do humor (4%).

 

Qual o tratamento?

A intervenção terapêutica na PHDA assenta em 3 pilares-base: tratamento farmacológico, intervenção comportamental e intervenção psicoeducacional (quando necessário).[1,8]

O tratamento farmacológico consiste em psicoestimulantes (metilfenidato) e é muitas vezes necessário.

A intervenção comportamental (também designada de psicoterapêutica) é realizada diretamente com a criança ou jovem e os pais, normalmente por um profissional de Psicologia. Tem o propósito de capacitar a criança/jovem para o autocontrolo e treinar para aquisição de competências, normalmente recorrendo a técnicas cognitivo-comportamentais.

A intervenção psicoeducacional engloba idealmente programas de intervenção em casa, na escola, sala de aula e em outros locais importantes com o objetivo de estruturar os contextos e as atividades às dificuldades da criança ou jovem.

 

Literatura Recomendada

Para os professores:

PHDA - Um guia para os professores

 

Para os pais (em inglês):

McCarney SB. The Parent's Guide to Attention Deficit Disorders: Intervention Strategies for the Home. Hawthorne Educational Services; 2 edition (1995) (inglês)

 

Outros sítios úteis

Associação Défice de Atenção e Hiperatividade (DAH)

Portal da Hiperatividade e Défice de Atenção

Clube PHDA

Perspetiva de um doente com PHDA

 

 

REFERÊNCIAS

1. American Academy of Pediatrics. ADHD: Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics 2011; 128(5)

2. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders 5 (DSM 5). 2013.

3. Almeida, JMC et al. ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO NACIONAL DE SAÚDE MENTAL – 1º relatório. Disponível em URL: http://www.fcm.unl.pt/main/alldoc/galeria_imagens/Relatorio_Estudo_Saude-Mental_2.pdf (acedido em 18/12/2015).

4. Collingwood J. ADHD and Gender. Psych Central. Disponível em URL: http://psychcentral.com/lib/adhd-and-gender/ (acedido em 18/12/2015)

5. Arcia, E. and Conners, C. K. Gender differences in ADHD? The Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics, Vol. 19, April 1998, pp. 77-83

6. Gershon J. A Meta-Analytic Review of Gender Differences in ADHD. J Atten Disord 2015; 5(3):143-154.

7. MTA Cooperative Group. Arch Gen Psychiatry 1999; 56; 1973-86.

8. AACAP Official Action. Practice Parameer for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder. J Am Acad Adolesc Psychiatry 2007; 46(7): 894-916.