Obstipação infantil

Última revisão deste tema: 30/12/2015

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O que são hábitos intestinais normais?

Antes de entrar propriamente no tema da obstipação, há que começar pelos conceitos básicos. Como já referido no nosso tópico "Fraldas molhadas e sujas", os hábitos intestinais variam muito de criança para criança.[1-3] No lactente e criança, o normal varia entre várias vezes por dia (após cada refeição, em resultado do reflexo gastro-cólico) até uma vez por semana desde que o bebé ou criança esteja confortável com este padrão: mais importante que a frequência são o contexto da consistência das fezes e os sinais ou sintomas associados.[3] Assim:

 

- Na primeira semana de vida, a maioria dos bebés tem 4 ou mais evacuações por dia.

- Nos primeiros três meses, alguns bebés têm 2 ou mais evacuações por dia. Outros têm apenas 1 por semana (sobretudo os bebés em amamentação).

- Aos 2 anos, a maioria das crianças tem pelo menos 1 evacuação por dia. São moles mas sólidas.

- Aos 4 anos, a maioria das crianças tem 1 evacuação por dia

 

A diminuição do número de evacuações por dia está relacionada com o aumento do tempo médio do trânsito intestinal que passa de um valor médio de 8,5 horas (1 a 3 meses de vida) para 30 a 48horas (depois da puberdade).

 

 

Como se define a obstipação infantil ou prisão de ventre?

O diagnóstico de obstipação na infância e juventude está definida pelos critérios de Roma III[4,5] de acordo com o grupo etário:

 

Lactentes e crianças até 3 anos

Pelo menos 2 dos seguintes sinais / sintomas presentes pelo menos por 1 mês:

- Duas evacuações ou menos por semana

- Pelo menos um episódio de incontinência fecal após a retirada da fralda com sucesso

- História de retenção de fezes sistemática

- História de evacuação de fezes duras ou com dor-

- Presença de massa fecal de grandes dimensões no reto

- História de fezes de grandes dimensões que podem entupir a sanita

 

Crianças e jovens dos 4 aos 18 anos

Pelo menos 2 dos seguintes sinais / sintomas presentes pelo menos por 2 meses:

- Duas evacuações ou menos por semana

- Pelo menos um episódio de incontinência fecal por semana

 

- História de retenção postural de fezes ou retenção volitiva (pela vontade da própria criança) excessiva

- História de evacuação de fezes duras ou com dor

- Presença de massa fecal de grandes dimensões no reto

- História de fezes de grandes dimensões que podem entupir a sanita

 

 

Qual é a causa?

A obstipação infantil pode ser dividida em 2 grupos: as de origem funcional (a maioria, sem doença orgânica subjacente) e as de origem orgânica (menos de 5% dos casos).[6] Em todas as idades as obstipações funcionais são mais frequentes que as de origem orgânica excepto no período neonatal (até aos 28 dias) em que as orgânicas são mais frequentes. As causas orgânicas são múltiplas incluindo malformações anatómicas (como estenose anal, ânus imperfurado, massa pélvica), metabólicas (hipotiroidismo, hipocalcémia, hipocaliémia, doença celíaca, diabetes mellitus, fibrose quística), neuropáticas, musculares (problemas da musculatura abdominal), intestinais (doença de Hirschsprung, displasia intestinal neuronal, miopatias), conectivites, intolerância às proteínas do leite de vaca, intoxicação a vitamina D, entre outras.

 

 

A obstipação infantil é muito frequente?

A obstipação funcional é um dos problemas mais frequentes em idade pediátrica afetando entre 3% das crianças a nível global, sendo uma das causas mais frequentes de consulta por doença nesta idade.[7,8] Em cerca de 40% dos casos são iniciadas no primeiro ano de vida.[8]

 

 

Quando suspeitar de prisão de ventre ou obstipação numa criança ou bebé?

- Tem menos evacuações que o seu padrão habitual

- Queixa-se de dor quando está a evacuar ou, no caso dos bebés, dobram-se sobre si mesmos e choram quando evacuam

- Evita ir ao wc, faz "dança" ou esconde quando sente que tem que evacuar

- Deixa passar pequenas quantidades de fezes para a roupa interior de forma regular

 

 

Quando é mais provável de acontecer a obstipação infantil?

Existem 3 períodos críticos em que a obstipação é mais provável de acontecer[9]:

1. Introdução de alimentos sólidos ou leite de vaca

2. No período do "Treino do pote" (causas: ingestão de leite em excesso, má utilização da sanita do adulto)

3. Entrada na escola (causa: retenção de fezes pela criança)

 

 

Como prevenir a obstipação / prisão de ventre?

Existe um conjunto de medidas que tradicionalmente têm sido recomendadas pelos profissionais por terem benefício na prevenção e tratamento da obstipação ligeira.[8] Atualmente, nenhuma destas medidas conseguiu demonstrar ainda forte evidência científica de benefício (provinda de ensaios clínicos) na obstipação crónica,[8,9] tendo levado as próprias sociedades americana e europeia de Gastroenterologia, num documento em conjunto, a não recomendar o uso destas medidas por rotina nesta situação.[8] No entanto, mesmo em obstipações mais difíceis, tratam-se de medidas inofensivas e que poderão resultar pontualmente, consideramos lícito poderem ser experimentadas ou reforçadas pelos pais. A aplicação destas medidas a um lactente ou criança sem sinais de alarme (ver abaixo) se não levar a uma melhoria da obstipação em 24h deverá levar os pais a consultar o médico assistente da criança. Assim:

 

A. Lactentes dos 4 meses a 1 ano

- Aumento do aporte de água. Não se esqueça que especialmente no Verão as necessidades hídricas poderão ser maiores do que as que as fornecidas pelo leite: ofereça o biberão de água entre as refeições.

- Prepare em casa sumos ou purés 100% naturais de ameixa (preferencialmente), maça ou pêra e ofereça ao bebé. A ameixa é o fruto que tem maior quantidade de fibras (12,4g por peça) seguido da maçã (4,4g por peça com casca). Nos mais pequenos (entre os 4 e os 8 meses), 60 a 120ml é uma dose de início razoável. Ainda neste tópico, um outro "truque" muito usado é colocar uma ameixa preta inteira em repouso durante a noite no biberão de água a oferecer ao lactente no dia seguinte.

- Papa: escolha para o seu bebé uma papa que tenha uma grande quantidade de fibras. Dentro das papas disponíveis no mercado, existe uma grande variação na quantidade de fibras por 100mg: desde as que têm cerca de 3g às que têm mais de 12g. As papas com frutos (por exemplo, com maça) e cereais são as que têm mais fibras enquanto as papas de arroz as que têm menos. Leia o rótulo da embalagem e escolha a papa apropriada para a idade com mais fibra.

- Leite materno: se o seu filho se encontra a amamentar, a dieta da mãe pode aumentar o aporte de fibras. Entre os alimentos com mais fibras encontram-se a fruta (sobretudo ameixa, maça e pêra com casca, kiwi), pão integral, feijão, cereais ricos em fibras e suplementos como sementes de linhaça ou farelo de trigo.

- Leite adaptado: se o seu filho consome leite adaptado escolha, dentro da marca habitual, um com maior quantidade de fibras (habitualmente com a designação "Confort" ou "Anti-obstipante").

 

B. Crianças a partir de 1 ano de idade

- Aumento do aporte de água.

- Aumento do aporte de fibras na dieta. Entre os alimentos com mais fibras encontram-se a fruta (sobretudo ameixa, maça e pêra com casca, kiwi), pão integral, feijão, cereais ricos em fibras e suplementos como sementes de linhaça ou farelo de trigo. Não esquecer de ler os rótulos dos alimentos (por exemplo, cereais) para, entre opções semelhantes, escolher aquele com mais quantidade de fibras.

- Não ingerir leite de vaca em excesso. O consumo excessivo de leite de vaca sacia a criança e diminui o consumo de alimentos mais ricos nutricionalmente e com mais fibra, como os vegetais e a fruta. O consumo de 480-720ml de leite por dia é suficiente para suprir as necessidades de cálcio das crianças entre o primeiro e o quinto ano de vida.

- Utilizar suporte para os pés quando as crianças evacuam na sanita do adulto. A não utilização de suporte para os pés leva a uma postura anatómica na sanita que não favorece a evacuação (esta postura não permite a abertura total do canal do reto).

- Monitorização dos hábitos de evacuação da criança quando entra para a escola. A vergonha e embaraço social pela necessidade de ter que o fazer sem ajuda podem levar a criança a reter as fezes.

- Aumento da atividade física.

 

 

INTERVENÇÕES SEM EVIDÊNCIA CIENTÍFICA

 

Devo utilizar pré ou próbióticos?

A utilização por rotina de prébióticos (fibras não digeridas) ou próbióticos (bactérias da flora intestinal) não é recomendada pelas sociedades americana e europeia de gastrenterologia e gastrenterologia pediátrica por não terem evidência de benefício em estudos realizados. O seu uso deve ser selecionado caso a caso. Fale com o seu médico assistente antes de utilizar estes produtos.

 

Devo utilizar laxantes?

A utilização de laxantes também não é aconselhável por rotina por poderem levar a habituação e por vezes causarem efeitos laterais. O seu uso deve ser selecionado caso a caso. Fale com o seu médico assistente antes de utilizar estes produtos.

 

 

 

Quando levar ao médico (sinais de alarme na obstipação infantil)?

- Tem menos de 4 meses de idade

- Está recorrentemente obstipado / com prisão de ventre

- Tentou as medidas sugeridas atrás sem resultado em 24h

- Existe sangue misturado nas fezes ou na fralda / roupa interior

- Dor intensa

- Febre

- Distensão abdominal ("barriga inchada")

- Má progressão ou perda de peso

 

 

 

REFERÊNCIAS

1. Shelov, S.P., Caring for your baby and young child: birth to age 5. American Academy of Pediatrics, 2009. 5th Ed.

2. Patient information: constipation in children. Sistema Uptodate. Acedido em 30/12/2015.

3. Nurko S. Evaluation and Treatment of Constipation in Children and Adolescents. Am Fam Physician. 2014 Jul 15;90(2):82-90.

4. Rasquin A et al. Childhood functional gastrointestinal disorsders: child/adolescent. Gastroenterology 2006: 130:1519.

5. Hyman PE et al. Childhood functional gastrointestinal disorsders: neonate/toddler. Gastroenterology 2006: 130:1519.

6. Ferry G et al. Constipation in childre: Etiology and diagnosis. Sistema Uptodate. Acedido em 30/12/2015.

7. van der Berg MM et al. Epidemiology of childhood constipation: a systematic review. Am J Gastroenterol 2006; 67:1041.

8. Tabbers MM et al. Evaluation and Treatment of Functional Constipation in Infants and Children: Evidence-Based Recommendations

from ESPGHAN and NASPGHAN. JPGN 2014; 58 (2).

9. Ferry G et al. Prevention and treatment of acute constipation in infants and children. Sistema Uptodate. Acedido em 30/12/2015.