Infeções respiratórias e de repetição

 

 

 

 

 

As infeções são a causa mais comum de doença aguda na criança e dentro destas as infeções respiratórias são as mais frequentes.

Ao nascimento, os lactentes possuem todos os componentes essenciais do sistema imunitário, embora sejam imaturos. Até cerca dos 6 meses de idade, as crianças estão protegidas por anticorpos maternos adquiridos através da placenta, mas a partir desta idade a proteção passiva começa a diminuir, deixando-as suscetíveis às infeções comuns. Se este fenómeno coincidir com a fase em que entram para o infantário/creche, a possibilidade de ter infeção respiratória é grande.

À medida que as crianças crescem têm menos infeções, não só porque o seu sistema imunitário se torna mais maduro, mas há certas estruturas anatómicas que se tornam mais eficientes.

 

 

Tipos de infeções respiratórias

 

As infeções são classificadas em superiores e inferiores tendo em conta a região da árvore respiratória que atingem.

 

As infeções do aparelho respiratório superior incluem:

- ouvidos (otite)

- nariz e seios perinasais (rinosinusite)

- faringe e amígdalas (faringite e amigdalite).

 

As infeções do aparelho respiratório inferior incluiem:

- laringe e traqueia (laringotraqueíte)

- brônquios e bronquíolos (bronquite e bronquiolite, respetivamente )

- pulmões (pneumonia)

 

As infeções respiratórias infantis são maioritariamente causadas por vírus. Cerca de 80% das infeções atingem apenas o trato respiratório superior, que inclui as constipações, faringites e amigdalites, otites e sinusites. Dentro destas, as constipações são sem dúvida as mais comuns.

É muito comum estas infeções surgirem quando as crianças entram para a creche ou infantário, devido ao contacto com outras crianças já infetadas.

 

 

1. Constipações (corizas)

 

Apresentam-se geralmente com:

                                            - corrimento nasal claro

                                            - obstrução nasal (“nariz entupido”)

                                             - febre

Tratamento:

As constipações são auto-limitadas, ou seja, curam-se espontaneamente, não precisam de qualquer tratamento. Poderá eventualmente utilizar-se um antipirético (ex.: paracetamol) no caso de haver febre ou dor. Os antibióticos não são benéficos, uma vez que estas são infeções causadas por vírus e não por bactérias.

 

 

2. Faringites/amigdalites (dor de garganta)

 

As faringites são também maioritariamente provocadas por vírus. Até aos 2-3 anos praticamente não existem amigdalites/faringites causadas por bactérias.

Apresentam-se com:

- dor na garganta

- dor ao engolir

- febre

- glânglios do pescoço aumentados e dolorosos

 

A amigdalite é uma forma de faringite, na qual há uma inflamação intensa das amígdalas e que pode ser acompanhado ou não por um exsudado purulento (“pontinhos brancos”). Na maioria dos casos este exsudado não está presente. Esta infeção é geralmente provocada por vírus e só é originada por bactérias nas crianças mais velhas.

Prevenção de amigdalites recorrentes

 

Existem várias estratégias de prevenção de novos episódios de amigdalite, que incluem profilaxia antibiótica, vacinas e imunoestimuladores e cirurgia. (colocar hiperligação)

 

Quando pensar na cirurgia?

É comum as crianças terem amígdalas grandes, o que por si só não é indicação para as retirar, uma vez que elas diminuem naturalmente com a idade (geralmente a partir dos 7 anos). A remoção das amígdalas e adenoides (amigdalectomia e adenectomia) deve ser considerada nos casos de ”amigdalites recorrentes”.

 

Apesar deste conceito ainda levantar alguma controvérsia, a opção cirúrgica deve ser equacionada quando a criança tem:

 

- 6 episódios no último ano ou

- 4 episódios por ano nos últimos dois anos ou

- 3 por ano em três anos consecutivos.

 

Este é um procedimento bem tolerado, podendo ser feito em regime de ambulatório e as complicações são extremamente raras. No entanto, o período pós-operatório é habitualmente doloroso durante cerca de uma semana. A remoção da amígdala palatina não está associada a alterações imunitárias relevantes, não havendo por isso aumento de incidência de outras infeções ou alergias.

 

 

3. Otites (infeção do ouvido)

 

Uma otite geralmente é precedida de uma infeção vírica (ex.: constipação) e apresenta-se com:

- dor de ouvido

- febre

 

As crianças mais pequenas podem não se queixar de dor, mas apresentam-se geralmente com irritabilidade, recusa alimentar ou prostração. Nalguns casos as crianças podem até levar a mão ao ouvido que lhe dói.

 

Tratamento

Muitas vezes a otite aguda resolve-se sem qualquer tratamento num prazo de 24h. Pode-se utilizar o paracetamol para a febre e dor, mas há situações em que está indicado um antibiótico. Os anti-histamínicos ou terapêutica intranasal (descongestionantes ou corticoides) não têm utilidade demonstrada.

 

Prevenção de otites recorrentes

A definição de otite recorrente corresponde a:

- mais de três episódios nos últimos seis meses  OU

- mais de quatro no último ano.

 As otites recorrentes não devem ser confundidas com otites recidivantes, em que não há uma completa cura, e que deve ser suspeitada se o intervalo entre os episódios for curto (inferior a um mês).

As infeções recorrentes do ouvido podem acarretar otite crónica (secretora), que é uma causa comum de perda de audição na criança. Esta condição pode interferir no desenvolvimento normal da linguagem e aprendizagem.

Existem várias estratégias de prevenção de novos episódios de otite aguda, que incluem, vacinas e imunoestimuladores e cirurgia. (colocar hiperligação)

 

A cirurgia corresponde a uma adenoidectomia (remoção da adenoide/amígdala faríngea) e diminui comprovadamente a taxa de recorrência de otite média aguda. Este é igualmente um procedimento bem tolerado, podendo ser realizado em ambulatório, retomando-se a atividade normal no dia seguinte. A remoção da amígdala faríngea não está associada a alterações imunitárias relevantes, não se observando, nos estudos publicados, modificação da incidência de outras infeções ou de alergias.

 

 

4. Sinusite

 

O termo sinusite refere-se genericamente à inflamação da mucosa que cobre o interior dos seios perinasais. A designação correta deve ser de rinossinusite por haver continuidade anatómica e funcional entre as estruturas cobertas pelo mesmo epitélio

 

A maior parte das sinusites são causadas por vírus e apresentam-se com:

               - obstrução nasal (“nariz entupido”)

               - corrimento nasal (secreções)

               - dor ou sensação depressão na face

 

 

Tratamento

A maior parte dos casos de sinusite aguda tem uma evolução benigna e curam-se espontaneamente em duas semanas, sem complicações e com terapêutica anti-inflamatória.

Se não for tratada ou se se mantiverem as queixas durante um período superior a 10 dias poderá ter ocorrido uma sobreinfeção bacteriana. Nestas circunstâncias, recomenda-se tratamento antibiótico.

 

Prevenção de sinusites recorrentes

Chama-se sinusite recorrente sempre que se verificam:

- mais de 3 episódios nos últimos 6 meses OU

- mais de 4 episódios no último ano

 

A sinusite recorrente não deve ser confundida com sinusite crónica com agudizações, em que não há uma completa cura, e que deve ser suspeitada se o intervalo for curto (inferior a um mês).

 A prevenção de novos episódios de sinusite pode incluir estratégias distintas, como a terapêutica anti-inflamatória, a profilaxia antibiótica, as vacinas e imunoestimuladores e a cirurgia.

 

NOTA: As lavagens com soluções hipertónicas (ou quaisquer outras) não são úteis em prevenção, ou seja quando não há queixas. Na verdade, podem mesmo ser prejudiciais.

Devem ser evitados agentes irritantes, em particular a água da piscina. Da mesma forma, a utilização abusiva de vasoconstritores é prejudicial, agravando o problema a médio prazo

 

Em crianças em que as terapêuticas fracassaram ou em que existe um impacto importante na qualidade de vida, pode optar-se pela cirurgia. A principal opção é a adenoidectomia (remoção da adenoide), que parece diminuir a taxa de recorrência de sinusites.

 

 

5. Infeções da laringe ou traqueia (crupe)

 

As laringotraqueítes são causadas em 95% dos casos por vírus. Atingem geralmente crianças entre os 6 meses e os 6 anos, sendo o pico de incidência aos 2 anos de idade. Muitas vezes a laringotraqueíte é precedida por uma constipação e/ou febre e apresenta-se com:

 - tosse “de cão”

- rouquidão

- ruído ao inspirar

 

É comum este quadro agravar-se à noite. Geralmente os sintomas desaparecem sem qualquer medicação. Contudo, se a situação clínica se agravar a criança deve ser avaliada por um médico.

 

 

6. Bonquiolite (infeção dos bonquíolos)

 

Esta é uma infeção que atinge os pequenos brônquios (bronquíolos) e é comum nos lactentes, sendo rara após 1 anos de idade. Entre 75 a 90% dos casos esta infeção é causada por um vírus (Vírus Sincial Respiratório). As bronquiolites podem justificar internamento hospitalar, nos caos mais graves e principalmente nos lactentes mais pequenos. As bronquiolites geralmente são precedidos por uma constipação e apresentam-se frequentemente com:

               - tosse seca e intensa

               - pieira (“gatinhos”)

               - aumento da frequência respiratória (respirar mais rápido)

               - pele arroxeada

 

Tratamento

Por ser uma infeção vírica a bronquiolite não carece de tratamento específico, mas sim de medidas de suporte, como por exemplo oxigénio humidificado ou até aspiração de secreções. Geralmente este quadro resolve-se dentro de duas semanas, mas há casos em que os episódios de tosse e pieira se podem repetir.

 

 

 

REFERÊNCIAS

1. CDC – Centers for Diseases Control and Prevention – Careful Antibiotic Use

2. Sociedade Portuguesa de Pediatria. Recomendações para a prevenção da infecção por vírus sincial respiratório. Acta Pediátrica Portuguesa. 2007

3. Vasconcelos A. . Infeções Respiratórias recorrentes – uma visão multidisciplinar. 2012

4. Lissaeur T. . Manual Ilustrado de Pediatria. 2003

Quais os fatores de risco?

São vários os fatores que aumentam a probabilidade de ter infeções respiratórias recorrentes, sendo o mais importante a idade. Quanto mais novas são as crianças maior é o risco. Existem ainda outros fatores, como:

 

- ausência de aleitamento materno;

- frequentar o infantário;

- exposição ao fumo do tabaco;

- grande número de pessoas a viver na mesma casa

 

Medidas preventivas

- evitar qualquer contacto com o tabaco

 

- preferir infantários com número limitado de crianças, com salas amplas e boa ventilação

 

- em casa, lavar corretamente as mãos

 

- evitar que a criança esteja em contacto próximo com familiares com sintomas de infeção respiratória.

 

- evitar locais com grande concentração de pessoas e/ou poluídos

 

No contexto da prevenção estão ainda incluídas outras estratégias, como as vacinas e os imunoestimuladores ou em certos casos a cirurgia.

 

A RETER

- Corrimento nasal, febre e tosse são sintomas virais

 

- Alteração da cor das secreções para amarelo ou verde é o curso natural de uma infeção vírica e por isso não tem indicação para tratamento com antibiótico

 

- O tratamento das infeções víricas inclui medidas não farmacológicas, como a elevar a cabeceira da cama nos lactentes e limpar o nariz com soro fisiológico. Estas medidas são essenciais na diminuição da acumulação de secreções mucosas e risco de infeção bacteriana secundária.

 

- Tratar uma infeção vírica não vai encurtar a duração da doença

 

- Os antitússicos não estão recomendados. A Academia Americana de Pediatria, assim como a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) reiteram que “Não existem estudos científicos de qualidade que demonstrem a eficácia e a segurança dos antitússicos, para uso em crianças.

 

- Os mucolíticos ou expetorantes não são em geral aconselhados a crianças com idade inferior a 4 anos