Febre

Última revisão deste tema: 02/01/2016

Partilhe nas redes sociais:

 

 

 

 

O que é e o que a causa?

A Febre é a manifestação mais comum de doença na idade pediátrica, sendo a causa mais frequente de procura dos cuidados de saúde. É definida como elevação da temperatura corporal acima de determinado valor e pode surgir associada a processos inflamatórios, traumatismos, entre outras causas.[1,2]

 

Ao longo do dia a temperatura varia entre os 36 e os 37ºC pela manhã e pode chegar aos 38ºC ao fim da tarde (temperatura retal). Assim, é considerado febre [1-4]:

 

- Temperatura retal acima dos 38ºC (no Verão pode-se aceitar apenas acima dos 38.3ºC [4])

- Temperatura oral acima dos 37.8ºC

- Temperatura axilar acima dos 37.2ºC

- Temperatura do tímpano acima dos 38ºC (em modo retal) ou 37.5ºC (em modo oral)

- Temperatura medida na testa acima dos 38ºC

 

 

Qual a melhor forma de medir a temperatura?

Como já descrevemos na secção temperatura normal e febre, as medições a nível oral ou retal são as mais fiáveis.[5-11]

Abaixo dos 4 anos é recomendado medir a temperatura retal com termómetro digital.[1,12]

Nas crianças com 4 anos ou mais a temperatura oral é também fiável, com termómetro digital, desde que siga as seguintes indicações [2]:

 

INSTRUÇÕES PARA CORRETA MEDIÇÃO DA TEMPERATURA ORAL:

1. Esperar pelo menos 30 minutos após a criança tiver bebido ou comido algo quente ou frio.

2. Lavar o termómetro com água fria e sabão. Depois enxaguá-lo.

3. Posicionar a ponta do termómetro debaixo da língua da criança. Dar instrução à criança de segurar o termómetro com os lábios (e não com os dentes) fechando completamente a boca em redor do termómetro.

4. Esperar pela indicação do termómetro se este for digital (geralmente, menos de 1 minuto) ou cerca de 3 minutos se o termómetro for analógico.

 

Como alternativa, a temperatura medida a nível axilar também pode ser utilizada, embora comparativamente com as outras tenha revelado ser a menos fiável.[12]

 

           

Medidas gerais - como ajudar a minha criança com febre?

Existem algumas medidas que podem ajudar a uma redução mais rápida da temperatura e a dar um maior conforto à criança incluindo [1-2,11]:

 

1. Hidratação/Alimentação

A transpiração e a falta de apetite associados a uma síndrome febril podem induzir alguma desidratação, por isso devem ser oferecidos à criança líquidos com regularidade.

Relativamente à falta de apetite, faz parte do quadro, portanto os pais devem ficar tranquilos, pois com a resolução do quadro o apetite voltará e não será por 2-3 dias que a criança ficará desnutrida.

 

2. Vestir/Despir

Na fase inicial em que a criança apresenta calafrios e/ou extremidades frias poderá aquecê-la. De seguida, quando a temperatura atingiu o pico e o corpo começa a libertar o calor deve-se despir a criança.

 

3. Repouso

Embora não seja recomendado forçar a criança a dormir ou descansar, esta deve ser encorajada a fazê-lo se o quiser.

 

4. Banho

O arrefecimento com recurso a banho não é obrigatório mas poderá ajudar a uma redução mais rápida da temperatura corporal em alguns graus (de 40-41ºC para 37-38ºC) e deve ser feito a uma temperatura de 37ºC por um período máximo de 10 minutos.

          

 

INTERVENÇÕES SEM EVIDÊNCIA CIENTÍFICA - Quando tratar a febre com antipiréticos? Os antipiréticos são sempre necessários?

A Febre representa um mecanismo de defesa do nosso organismo contra a infecção e o seu tratamento visa unicamente a prevenção de complicações de hipertermia, bem como o bem-estar da criança. Mais do que o valor da temperatura, é o aspeto e comportamento da criança que mais importa. O tratamento com antipirético não é sempre necessário.[1-2,11] Por exemplo, para uma criança ou bebé com mais de 3 meses de idade que tenha uma temperatura retal abaixo dos 38.9ºC e que esteja ativa e a agir normalmente não precisa de antipirético, bastando atitude vigilante dos cuidadores.

 

 

Que antipirético usar?

O antipirético mais largamente difundido e recomendado como 1ª linha em idade pediátrica é o paracetamol. A dose a administrar deve ser adequada ao peso da criança e não à sua idade. Siga as recomendações do médico da criança antes de usar mas no geral a dose recomendada é de 10-15 mg/kg cada 4-6 horas a partir dos 3 meses (não exceder os 75mg/kg/dia salvo indicação médica).[12] Calculadora de dose pediátrica aqui.

 

O ibuprofeno poderá representar uma alternativa ao paracetamol. A dose a administrar é de 5-10mg/kg a cada 6-8 horas (não exceder os 40mg/kg/dia). A utilização de Ibuprofeno deve ser realizada com precaução, uma vez que se trata de um anti-inflamatório e pode gerar reacções de hipersensibilidade em crianças mais pequenas ou em crianças asmáticas.

 

 

INTERVENÇÕES SEM EVIDÊNCIA CIENTÍFICA - Alternar antipiréticos?

Na verdade, os estudos mais recentes de medicina baseada na evidência sugerem que a prática de alternar paracetamol com ibuprofeno não auxilia na descida mais rápida da temperatura corporal nem tem maior eficácia que qualquer um dos dois usado na dose adequada.[1-2,12-14]

 

O esquema de alternância poderá ainda levar a uma maior complexidade de administração e facilitar os erros de dosagem. Para além disso, o uso de ibuprofeno pode ser mais perigoso (por exemplo, na varicela, em que o seu uso não está recomendado).

 


Quando levar uma criança com febre ao médico?

Na maioria das situações a criança pode ser observada e tratada em casa. Mas é importante conhecer os sinais de alerta na febre [1-2, 13]:

 

- Bebés com menos de 3 meses de idade com temperatura retal de 38ºC ou superior (mesmo que bebé aparente estar bem).

- Crianças entre os 3 meses e os 3 anos de idade com temperatura retal de 38.9ºC ou superior (mesmo que aparente estar bem).

- Crianças entre os 3 meses e os 3 anos de idade com temperatura retal de 38ºC ou superior SE:

          - por mais que 3 dias ou

          - criança com aspeto doente ou

          - criança irritada, "murcha" ou

          - criança que se recuse a comer ou beber líquidos.

 

QUALQUER BEBÉ OU CRIANÇA COM:

- Temperatura retal de 40ºC ou superior (ou axilar de 39.4º ou superior).

- Uma convulsão causada pela febre

- Febres recorrentes (mesmo que durem poucas horas)

- Febre e um problema clínico crónico (como doenças do coração, lúpus, anemia das células falciformes, entre outras)

- Febre associada a manchas na pele

- Mau estado geral / prostração (criaça muito "murcha") que não passa no período sem febre

- Recusa a comer ou beber líquidos

- Desidratação

- Dificuldade respiratória

- Vómitos incoercíveis (que não passam com nada)

- Extremidades do corpo sempre frias ou cianosadas (arroxeadas)

 

NOTA: estas são indicações genéricas e não se aplicam a todas as situações específicas; pais com dúvidas ou preocupados com a saúde da sua criança deverão contactar um profissional para aconselhamento.

 

 

 

O uso de antibiótico é necessário?

Felizmente, a maioria das infeções nas crianças são benignas e causadas por vírus. Se o médico da criança não a medicou com antibiótico é porque está a zelar pelo seu melhor interesse, pois os antibióticos só atuam nas infeções bacterianas. Nunca automedique a sua criança com antibiótico. Mais informação sobre o uso de antibióticos nas infeções aqui.

 

 

Quando voltar à escola e atividades normais?

A criança pode voltar à escola ou a outras atividades após 24 horas de apirexia.

 

 

REFERÊNCIAS

1. Patient information: fever in children (the basics). Sistema Uptodate. Acedido em 18/12/2015.

2. Ward MA. Patient information: fever in children (beyond the basics). Sistema Uptodate. Acedido em 18/12/2015.

3. Mackowiak, P.A., S.S. Wasserman, and M.M. Levine, A critical appraisal of 98.6 degrees F, the upper limit of the normal body temperature, and other legacies of Carl Reinhold August Wunderlich. JAMA, 1992. 268(12): p. 1578-80.

4. Herzog, L.W. and L.J. Coyne, What is fever? Normal temperature in infants less than 3 months old. Clin Pediatr (Phila), 1993. 32(3): p. 142-6.

5. Temperature measurement in paediatrics. Paediatr Child Health, 2000. 5(5): p. 273-84.

6. Pediatrics, A.A.o., How to Take a Child's Temperature. HealthyChildren.org.

7. Callanan, D., Detecting fever in young infants: reliability of perceived, pacifier, and temporal artery temperatures in infants younger than 3 months of age. Pediatr Emerg Care, 2003. 19(4): p. 240-3.

8. Craig, J.V., et al., Temperature measured at the axilla compared with rectum in children and young people: systematic review. BMJ, 2000. 320(7243): p. 174-8.

9. Hissink Muller, P.C., L.H. van Berkel, and A.J. de Beaufort, Axillary and rectal temperature measurements poorly agree in newborn infants. Neonatology, 2008. 94(1): p. 31-4.

10. Batra, P. and S. Goyal, Comparison of rectal, axillary, tympanic, and temporal artery thermometry in the pediatric emergency room. Pediatr Emerg Care, 2013. 29(1): p. 63-6.

11. Niven DJ et al. Accuracy of Peripheral Thermometers for Estimating Temperature: A Systematic Review and Meta-analysis. Ann Intern Med. 2015;163(10):768-777

12. Sullivan JE et al. Fever and Antipyretic Use in Children. Pediatrics 2011; 127(3).

13. Fevrish illness in children, NICE clinical guideline 160, May 2013

14. Urgências no ambulatório em Pediatria, Direcção Geral de Saúde, Lisboa 2005