Diversificação alimentar no 1º ano de vida

Última revisão deste tema: 28/12/2015

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Quando introduzir os primeiros alimentos?

 

A introdução de alimentos na criança não deve acontecer nunca antes das 17 semanas nem depois das 26 semanas!

 

Desvantagens da introdução precoce (antes das 17 semanas de vida ou 4 meses):

 

- interfere com a produção do leite materno

- aumenta o risco de aspiração de alimentos e complicações respiratórias

- aumenta o risco de alergias e eczema atópico

- aumenta o risco de complicações infecciosas (como gastroenterites)

- aumenta o risco de obesidade

- expõe o bebé a níveis mais elevados e prejudiciais de sódio e proteínas

 

Desvantagens da introdução tardia (depois das 26 semanas ou 6 meses):

 

- aporte insuficiente de energia e nutrientes para as necessidades do bebé

- compromisso na aquisição das capacidades motoras (mastigação, coordenação da deglutição) e do treino do paladar e texturas

- aumento do risco de alergias

 

 

Como introduzir?

 

Consulte o nosso guião para a introdução gradual dos alimentos no primeiro ano de vida (clique em cima da imagem para obter o pdf):

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este guião foi preparado tendo em conta a evidência mais recente e as regras de bom senso. No entanto, múltiplas variações podem existir, ou seja, há várias maneiras correctas de iniciar a diversificação desde que não se cometam alguns erros.

 

Uma das regras importantes na diversificação alimentar do primeiro ano de vida é, quando se introduz um alimento, esperar pelo menos 3 dias até introduzir outro à criança. Desta forma, dá-se tempo à criança de conhecer esse novo alimento e, por outro lado, avalia-se algum tipo de reação adversa (como alergia) a esse alimento.

 

Assim, de uma forma resumida (consultar o guião pdf para mais pormenores):

 

No período entre os 4 e os 6 meses de vida introduz-se, por ordem, a sopa de legumes, a fruta e a papa sem glúten. Sugerimos começar pela sopa (ver secção abaixo "porquê a sopa antes da papa?") embora também possa ser a papa (especialmente sugerido em bebés que não estejam a aumentar muito de peso). A sopa sugerimos iniciar com 3 ingredientes (entre batata, cenoura, alface, cebola e abóbora) e ir introduzindo um novo vegetal, de 3 em 3 dias, até formar uma sopa com 6-7 ingredientes. Os vegetais a evitar são o nabo, a nabiça e o aipo e as leguminosas (feijão, ervilha, lentilhas, etc.) também só a partir de 1 ano de idade. Em relação à fruta, começar pelas mais convencionais (maçã, pêra, banana, papaia, ameixa), só depois dos 9 meses o pêssego, manga, uvas (sempre cortadas) e citrinos, e evitar no primeiro ano de vida o kiwi, o ananás e os frutos vermelhos. No guião pdf têm todas as indicações.

 

No período entre os 6 e os 7 meses de vida substitui-se a papa sem glúten por papa com glúten (ver secção abaixo "porquê iniciar papa sem glúten e só depois com glúten?") e pode ser introduzida a carne na sopa. No guião em pfd têm todas as indicações de como o fazer.

 

No período entre os 7 e os 8 meses de vida pode ser introduzido o peixe.

 

No período entre os 9 e os 10 meses de vida pode ser introduzido a gema do ovo, bem como o arroz, pão e massa. Pedaços grandes de alimentos (como cenoura, pão) podem ser oferecidos para o lactente começar a pegar e trincar, treinando a mastigação (sempre com supervisão).


A partir dos 12 meses podem ser introduzidas as leguminosas, a clara do ovo, o leite de vaca, o nabo, a nabiça e todo o tipo de fruta (continuar com a regra dos 3 dias).

 

 

Erros a evitar

 

Sal

Justificação: Não há nenhuma razão para adicionar sal aos alimentos do seu filho. Se, por um lado, o paladar dos bebés não sente a falta do sal, por outro, o organismo do seu bebé não tem necessidade do sal de adição – as necessidades diárias são plenamente cobridas com o sal presente em todos os alimentos.

 Nesta fase, os circuitos neuro-endócrinos do seu filho ainda se estão a desenvolver – é importante que não recebam estímulos desapropriados com potencial impacto para toda a vida (o organismo desenvolver avidez ao sal).

Estudos recentes têm demonstrado que os bebés e crianças que ingerem sal têm uma pressão arterial mais elevada que os que não ingerem. Há estudos ainda que sugerem que a quantidade de sal ingerido cedo na vida tem impacto na pressão arterial mais tarde na vida.

 

Sumos e refrigerantes

Justificação: Os sumos (por mais naturais que sejam) são preparados incompletos da fruta a que se adicionam o açúcar e ou outras substâncias artificiais (corantes ou conservantes) que são desaconselhados no primeiro ano de vida (e mesmo daí em diante). Para além disso, o sumo pode dar a sensação de saciação ao bebé e pode acabar por substituir uma refeição realmente nutritiva à base do leite ou outros nutrientes essenciais.

 

Doces/guloseimas/chocolates

Justificação: estes alimentos são pobres sob o ponto de vista nutritivo, podem substituir refeições fundamentais e aumentando ainda o risco de cáries. A sua evicção evita que o seu bebé se habitue a pedir estes alimentos.

Uma boa prática é a de limitar estes alimentos a momentos muito especiais (como festas de aniversário).

 

Mel e açúcar

Justificação: Para além de pobre sob o ponto de vista nutritivo, constituído essencialmente por hidratos de carbono de absorção rápida, o mel pode conter algumas bactérias (nomeadamente o Clostridum difficile) que o organismo de um bebé até ao ano de idade não consegue gerir, podendo originar situações potencialmente graves (botulismo).

 

Frutos secos (nozes, amêndoas, amendoins e derivados)

Justificação: Este grupo de alimentos, para além de ter um potencial alergénio elevado, pode originar facilmente engasgamento e sufocação. O engasgamento por corpo estranho ainda é a principal causa de morte até ao ano de idade, e a maioria destas acontece por ingestão de frutos secos.

A maturação da deglutição só ocorre completamente a partir dos 3 anos, pelo que pelo seu potencial de perigo são CONTRA-INDICADOS antes desta idade. É prudente a ingestão destes alimentos apenas a partir dos 5 anos.

 

Chá, café e bebidas alcoólicas

Justificação: estas bebidas são extremamente prejudiciais às crianças e devem ser sempre evitadas.

 

 

Perguntas e dúvidas frequentes na diversificação alimentar

 

Começar pela papa ou pela sopa?

Estes dois alimentos introduzem-se no mesmo período e qualquer um deles pode ser começado em primeiro lugar. No nosso guião sugerimos, no geral, iniciar pela sopa porque o paladar dos bebés afeiçoa-se mais facilmente à papa, mais doce. Assim, não será previsível haver dificuldades na introdução da papa após a sopa, o que pode já não acontecer quando se inicia a sopa após a papa.

 

Podem ser utilizados todos os legumes na sopa?

Alguns vegetais, como o nabo, nabiça, espinafres e os brócolos contém um teor mais elevado de nitratos que pode ser prejudicial em idade precoce quando os rins ainda não estão completamente desenvolvidos para lidar com os excessos. Os relatos de efeitos prejudiciais verificaram-se sobretudo para bebés com menos de 4 meses (quando teoricamente ainda nem deveriam ter iniciado a diversificação alimentar!) mas por prudência é recomendável preferir outros vegetais na fase inicial da diversificação. Por outro lado, o aipo é um vegetal muito pobre em termos nutritivos (constituído essencialmente por água e fibras) pelo que é preferível preteri-lo em favor de outros mais nutritivos.

 

Porquê evitar as leguminosas antes dos 11 meses de idade?

As leguminosas são alimentos de difícil digestão e a sua utilização precoce pode causar desconforto e sintomas digestivos.

 

Porquê evitar frutas como o kiwi e os frutos vermelhos até ao ano de idade? Segundo os estudos, estas frutas são as mais prováveis de gerar reacções alérgicas, sobretudo o kiwi (embora no geral continue a ser raro). Decididamente, não são frutas para experimentar na fase inicial da diversificação, embora, com prudência (sobretudo para o kiwi) não sejam contra-indicadas antes do ano de idade.

 

Porquê evitar os boiões de fruta? Os boiões de fruta não oferecem nutricionalmente nenhuma vantagem em relação à fruta preparada na hora, são mais caros e contêm açúcar. Utilizar apenas em casos excepcionais (por exemplo, em viagem).

 

Porquê iniciar a papa sem glúten e só após com glúten? O glúten é responsável por uma boa parte das intolerâncias alimentares. Segundo a evidência mais recente, existe um período ideal para a introdução do glúten que deve ser respeitado – entre os 6 e os 7 meses. A introdução deste ingrediente sobretudo após este período aumenta a probabilidade de desenvolvimento de intolerância. Outros factores protectores para o desenvolvimento de intolerância são a introdução sequencial do ingrediente (aumentando dia após dia) e o bebé ser amamentado (leite materno) neste período.

 

Quais as vantagens de introduzir a carne aos 6 meses? A carne é uma excelente fonte proteica e de ferro, zinco e vitaminas do complexo B. Nesta idade, os rins do bebé já são suficientemente maduros para lidar com a filtração e eliminação das proteínas.

 

Na minha família existe história de alergia ao peixe. O meu bebé não deveria iniciar este alimento mais tarde (depois do ano de idade)?

O peixe é uma excelente fonte de ácidos gordos polinssaturados ómega 3 que se sabe terem um papel importante no desenvolvimento cognitivo das crianças. A introdução do peixe no primeiro ano de idade reduz o risco de doenças alérgicas aos quatro anos, nomeadamente, asma, eczema e rinite alérgica. Não há evidência que a introdução do peixe antes do ano de idade aumente o risco de alergia a este alimento, mesmo com história familiar. Pelo contrário, existe evidência que a introdução tardia (após 1 ano de idade) aumenta o risco de alergia a este alimento.

 

Quando introduzir o iogurte? Que tipo de iogurte introduzir?

Não existe resposta cerca para esta pergunta. Classicamente tem sido recomendado aos 8-9 meses de idade, embora não seja contraindicado antes (a partir dos 6 meses). Existem iogurtes comercializados para os bebés e podem ser uma opção, mas a nossa sugestão vai para o iogurte natural simples sem aroma ou adição de açúcar. É mais económico, não tem açúcares (ao contrário dos iogurtes adaptados que por vezes exageram) e, embora a origem seja o leite de vaca, as proteínas do leite de vaca estão totalmente hidrolisadas (degradadas) nos iogurtes.

 

 

REFERÊNCIAS

1.  Silva, A.I. and H.G. Aguiar, [Diversification in the first year of food life]. Acta Med Port, 2011. 24 Suppl 4: p. 1035-40.

2.  Guerra, A., et al., Alimentação e nutrição do lactente. Acta Pediátrica Portuguesa, 2012. 43(2): p. S17-S40.

3. WHO. Guiding Principles for Complementary Feeding of the Breastfeed Child. WHO, 2001.

4. Agostini, C et al. Complementary feeding: a commentary by the ESPGHAN Committee on Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2008 Jan;46(1):99-110.

5. Fiocchi, A. et al. Food allergy and the introduction of solid foods to infants: a consensus document. Adverse Reactions to Foods Committee, American College of Allergy, Asthma and Immunology. Ann Allergy Asthma Immunol. 2006 Jul;97(1):10-20

 

Quando introduzir?

A introdução de alimentos deve acontecer em qualquer momento entre as 17 (início do 4º mês) e as 26 semanas (início do 6º mês).

 

O momento certo para a sua introdução vai depender do tipo de aleitamento do bebé (materno ou leite adaptado) e da disponibilidade da mãe/cuidadores.

 

Os bebés alimentados a leite materno exclusivo poderão iniciar a diversificação alimentar mais próximo das 26 semanas (segundo as recomendações da OMS), enquanto os alimentados a leite adaptado poderá ser preferível iniciar mais próximo das 17 semanas. 

Escolher a melhor altura...

Introduza com tempo e amor. Não há palavras que possam descrever aquele momento único da introdução da primeira sopa ou papa – a surpresa e as expressões do seu bebé, a emoção e alegria dos pais ou cuidadores! É um momento irrepetível. E, como qualquer primeira vez, é necessária uma boa dose de paciência, tempo quanto baste e o seu amor incondicional. O que se pretende é que esta seja uma experiência positiva para o seu bebé e não surjam sentimentos ou estigmas negativos que poderão ser-lhe prejudiciais. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Insista mas não force. Se o seu bebé não estiver na maré de colaborar nessa ocasião, não se irrite! Isso não quer dizer que tenha que desistir desse alimento mas, sim, que volte a tentar mais tarde – uma, duas ou mais – as vezes que forem precisas até o bebé aceitar o alimento que é fundamental para o seu desenvolvimento! 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não desista de nenhum alimento importante. Todos os bebés são diferentes. Se há uns em que é relativamente simples a introdução de alimentos, há outros que exigem uma dose maior de paciência! No meio disto tudo, é importante que não prive o seu filho do hábito de ingerir certos alimentos. Por exemplo, se o seu bebé não revelar grande entusiasmo por uma fruta (por exemplo, pera), altere para outra (por exemplo maça) e volte a repetir a primeira passado algum tempo. Lembre-se, desistir de um ou mais alimentos pode implicar que o seu filho perca para sempre a oportunidade de gostar e o hábito de consumir esse(s) alimento(s)!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Evite fundamentalismos. Para a maioria das situações há várias opções válidas. Os pais mais experimentados certamente já se terão apercebido que o aconselhamento para a introdução dos alimentos não é exactamente igual entre os médicos. E isto porque, na maioria das situações não existe efectivamente provas científicas que uma opção seja melhor que outra! Por exemplo, há pediatras e médicos de família que recomendam a papa como o 1º alimento, outros recomendam a sopa – tanto uma como outra não são opções erradas! O importante sempre é que os pais se sintam confortáveis com a opção que tomam. Recentemente, a Sociedade Americana de Pediatria efectivamente concluiu não existir actualmente evidência de que qualquer sequência de introdução de alimentos seja melhor que outra.