CÓLICAS DO BEBÉ

Última revisão do tema: 27/12/2015

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O que são as cólicas?

 

As cólicas são definidas por episódios recorrentes (várias vezes por dia e vários dias por semana) e auto-limitados caracterizados por alguns destes sinais:

 

- Choro de características diferentes: alto, agudo e estridente, com a tonalidade a variar mais que o normal (turbulento e disfónico), parecendo mais gritar do que chorar;

 

- Inconsolabilidade;

 

- Contrações musculares (como o abdómen duro e distendido, mãos fechadas, pernas fletidas);

 

- Sinais de sofrimento visível em expressões faciais: caretas (ver imagem) e/ou agitação;

 

- Passagem de gás ou outros sintomas digestivos (regurgitação, diarreia)

 

 

Quando é que aparecem?

 

As cólicas do bebé são frequentes entre os 10 dias e os 3 a 4 meses de idade (mas por vezes até aos 6 meses). Estes episódios acontecem com maior frequência ao final de tarde ou início da noite.

 

 

Qual é a causa das cólicas?

 

As cólicas podem resultar de uma ou combinação de várias situações (ver quadro ao lado).

 

As cólicas podem também ser, em raros casos, sinal de patologias como a enxaqueca ou a intolerância às proteínas do leite de vaca.

Existem estudos que sugerem uma maior susceptibilidade destes bebés a dor abdominal recorrente, doenças alérgicas (eczema atópico, rinite e alergias alimentares) e psicológicas (perturbações do sono, enurese nocturna, agressividade) até aos 10 anos de idade.

 

Por vezes, as cólicas podem ser confundidas com o choro excessivo, situação que pode estar associada a doença (como infeções, fraturas ou problemas gastrointestinais). Em caso de dúvida deve falar com o seu médico de família ou pediatra.

 

Felizmente, na grande maioria dos casos (95%) não existe uma causa orgânica identificável – as cólicas são um processo benigno e autolimitado

 

 

Como ajudar o meu bebé com cólicas?

 

Excluindo as medidas dietéticas, a maioria das medidas gerais que de seguida é apresentada não está sustentada por estudos científicos. Assim, estas são recomendações com base em opiniões de peritos e bom senso. Apesar disso, são colocadas aqui como primeira linha na abordagem das cólicas nos bebés, por serem inofensivas e por poderem teoricamente ser eficazes!

 

 

REGRA DE OURO – calma e controlo

 

Este é o primeiro passo para controlar a cólica. Se este importante alicerce não está lá, será difícil confortar o seu bebé. Tranquile o bebé com tom de voz doce e suave. Muitas vezes pode ser o suficiente - não duvide de si mesmo(a)! O bebé necessita de se sentir seguro mas capta habilmente qualquer sinal de insegurança ou agitação dos pais, contribuindo para a perpetuação da situação.

 

LEMBRE-SE: O desespero pode ser grande, mas nunca deve sacudir o bebé (perigo de provocar lesões cerebrais)!

 

 

TÉCNICAS PREVENTIVAS:

 

- Estimular a eructação (o arroto) após cada mamada utilizando a técnica clássica de segurar o bebé contra o ombro e, em movimento, dando palmadinhas suaves nas costas;

 

- Apoiar o bebé sentado numa superfície dura (por exemplo uma mesa) durante cinco minutos duas vezes por dia – antes da primeira e última mamada do dia. Esta medida poderá ajudar a estimular o funcionamento do sistema digestivo.

 

 

TÉCNICAS DURANTE A CÓLICA:

 

- Embalar o bebé no colo com som melodioso (gutural) do progenitor. O som do pai, por ser mais grave e transmitir protecção, pode ser particularmente eficaz;

 

- Oferecer a chupeta ao bebé;

 

- Aconchegar o bebé dentro de um lençol (em alguns bebés pode, no entanto, agravar);

 

- Estímulo visual e auditivo de roca ou de outro brinquedo;

 

- Estímulo auditivo de máquina de lavar/secar roupa ou loiça ou aspirador (ruído de fundo). Por incrível que pareça, pode dar resultado;

 

- Estímulo auditivo de música clássica ou outra música que se saiba tranquilizar o bebé (pode ser, por exemplo, música ouvida durante a gravidez);

 

- Deitar o bebé de barriga para baixo sobre as pernas do progenitor sentado e massajar suavemente o dorso. A pressão exercida na barriga pode ajudar a expulsão de gases;

 

- Massajar a barriga do bebé suavemente no sentido dos ponteiros do relógio;

 

- Caminhar com o bebé: de barriga para baixo sobre o braço; de costas contra o peito/barriga do progenitor; com sling;

 

- Dar um passeio de carrinho na rua. Esta pode ser uma excelente técnica tanto para a mãe como para o bebé;

 

- Viajar de carro. Embora não seja recomendável utilizar sistematicamente esta técnica, no caso de se proporcionar é uma técnica que pode ter um bom resultado;

 

 

Medicação para a cólica do bebé

 

O tratamento farmacológico ou complementar pode ser uma opção de recurso em casos seleccionados, nomeadamente, episódios recorrentes de cólicas de difícil resolução (resistentes às medidas gerais atrás descritas) ou que causem grande transtorno ao ambiente familiar.

Nas farmácias e para-farmácias encontram-se actualmente disponíveis inúmeros produtos de venda livre concebidos para o tratamento das cólicas.

É aconselhável e prudente falar sempre com o seu médico assistente antes de partir para esta opção.

 

Genericamente incluem:

 

 

1. Enzimas

Lactase (Coliprev®)

A lactase pode ser utilizada desde o nascimento e o seu fundamento baseia-se no eventual défice transitório desta enzima nos lactentes, enzima que é fundamental para digerir a principal proteína do leite.

Existem estudos que identificam alguma eficácia[16, 17]  mas com algumas limitações metodológicas (amostras pequenas, elevadas desistências e baixas taxas de adesão, falta de informação sobre as características basais dos bebés) e outros estudos que, por outro lado, não encontraram evidência de benefício.[5, 18]

Face à evidência escassa e conflituosa, o seu uso por rotina não está recomendado por ser pouco provável o seu efeito benéfico, embora não seja de excluir efeito benéfico, sobretudo em fase precoce (1-2 meses).

Posologia: 8 gotas antes de todas as mamadas (do nascimento até aos 3 meses).

 

2. Probióticos

Lactobacillus reuteri (Biogaia®)

O tratamento com probióticos tem como fundamento a existência de uma flora intestinal inadequada no bebé com cólicas, com um ratio aumentado de bactérias prejudiciais (Gram- como a E.coli) e um ratio diminuído de Lactobacilos, resultando num aumento de produção de gás e dor.

Recentemente foram publicados vários estudos sobre a utilização de Lactobacillus reuteri em bebés com cólicas. Um estudo de 2007 identificou um efeito significativo em 95% dos bebés suplementados com Lactobacillus reuteri uma vez por dia[19], com efeitos positivos a partir dos 7 dias e a quantidade de choro a ser reduzida para os 51 minutos/dia. Outros estudos realizados em 2010 (de elevada qualidade metodológica)[20] e em 2013 (incluindo apenas bebés amamentados)[21] tiveram resultados no mesmo sentido e não identificaram efeitos prejudiciais.

Mais recentemente, um ensaio clínico duplamente cego australiano e de boa qualidade incluindo 167 bebés com cólicas não encontrou diferenças estatisticamente significativas [22], enquanto que outro canadiano em 52 bebés identificou efeito positivo na redução dos sintomas das cólicas (choro). [23]

O uso de Lactobacillus reuteri tem algum suporte na evidência sendo provável o seu efeito benéfico nas cólicas.

Posologia: 5 gotas uma vez por dia (pode ser usado desde o nascimento).

 

3. Fármacos

Simeticone (Aero-OM® e Infacalm®)

Apesar do seu uso generalizado, a utilização por rotina de não pode ser recomendada atendendo à existência de inúmeros estudos que não identificaram evidência de impacto benéfico em bebés com cólicas.[5, 6, 10, 19, 25-26]

 

4. Plantas medicinais

Funcho, camomila e erva-cidreira (Colimil®)

Infusão (“chá”) de funcho ou camomila (várias marcas)

O tratamento com estas plantas tem como fundamento o seu efeito relaxante da musculatura lisa intestinal.

O impacto positivo da utilização de plantas medicinais, particularmente o funcho, nas cólicas infantis tem sido identificado em alguns estudos. [27-28]

O uso da infusão de funcho ou a combinação de funcho, camomila e cidreira tem algum suporte na evidência sendo provável o seu efeito benéfico. No entanto, a utilização de infusões deve ser evitada em idade precoce pois pode interferir com o aleitamento materno e substituir uma refeição de leite.

 

 

 

REFERÊNCIAS

1. Romanello, S., et al., Association between childhood migraine and history of infantile colic. JAMA, 2013. 309(15): p. 1607-12.

2. Critch, J.N., Infantile colic: Is there a role for dietary interventions? Paediatr Child Health, 2011. 16(1): p. 47-49.

3. Savino, F., et al., A prospective 10-year study on children who had severe infantile colic. Acta Paediatr Suppl, 2005. 94(449): p. 129-32.

4. Roberts, D.M., M. Ostapchuk, and J.G. O'Brien, Infantile colic. Am Fam Physician, 2004. 70(4): p. 735-40.

5. Kheir, A.E., Infantile colic, facts and fiction. Ital J Pediatr, 2012. 38: p. 34.

6. Turner, T.L., Clinical features and etiology of colic. Uptodate 19.3, 2011.

7. Vik, T., et al., Infantile colic, prolonged crying and maternal postnatal depression. Acta Paediatr, 2009. 98(8): p. 1344-8.

8. Radesky, J.S., et al., Inconsolable infant crying and maternal postpartum depressive symptoms. Pediatrics, 2013. 131(6): p. e1857-64.

9. Kurth, E., et al., Crying babies, tired mothers: what do we know? A systematic review. Midwifery, 2011. 27(2): p. 187-94.

10. Hall, B., J. Chesters, and A. Robinson, Infantile colic: a systematic review of medical and conventional therapies. J Paediatr Child Health, 2012. 48(2): p. 128-37.

11. Jakobsson, I. and T. Lindberg, Cow's milk proteins cause infantile colic in breast-fed infants: a double-blind crossover study. Pediatrics, 1983. 71(2): p. 268-71.

12. ABM Clinical Protocol #24: Allergic Proctocolitis in the Exclusively Breastfed Infant. Breastfeed Med, 2011. 6(6): p. 435-40.

13. Hill, D.J., et al., Effect of a low-allergen maternal diet on colic among breastfed infants: a randomized, controlled trial. Pediatrics, 2005. 116(5): p. e709-15.

14. Iacovou, M., et al., Dietary management of infantile colic: a systematic review. Matern Child Health J, 2012. 16(6): p. 1319-31.

15. Lust, K.D., J.E. Brown, and W. Thomas, Maternal intake of cruciferous vegetables and other foods and colic symptoms in exclusively breast-fed infants. J Am Diet Assoc, 1996. 96(1): p. 46-8.

16. Kearney, P.J., A Trial of Lactase in the Management of Infant Colic. J Hum Nutr Dietet, 1998. 11(7): p. 281-285.

17. Kanabar, D., M. Randhawa, and P. Clayton, Improvement of symptoms in infant colic following reduction of lactose load with lactase. J Hum Nutr Diet, 2001. 14(5): p. 359-63.

18. Miller, J.J., et al., Effect of yeast lactase enzyme on "colic" in infants fed human milk. J Pediatr, 1990. 117(2 Pt 1): p. 261-3.

19. Savino, F., et al., Lactobacillus reuteri (American Type Culture Collection Strain 55730) versus simethicone in the treatment of infantile colic: a prospective randomized study. Pediatrics, 2007. 119(1): p. e124-30.

20. Savino, F., et al., Lactobacillus reuteri DSM 17938 in infantile colic: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Pediatrics, 2010. 126(3): p. e526-33.

21. Szajewska, H., E. Gyrczuk, and A. Horvath, Lactobacillus reuteri DSM 17938 for the management of infantile colic in breastfed infants: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. J Pediatr, 2013. 162(2): p. 257-62.

22. Sung V et al. Treating infant colic with the probiotic Lactobacillus reuteri: double blind, placebo controlled randomised trial. BMJ 2014;348:g2107

23. Chau K et al. Probiotics for Infantile Colic: A Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Trial Investigating Lactobacillus reuteri DSM 17938. The Journal of Pediatrics 2015; 166(1).

24. Garrison, M.M. and D.A. Christakis, A systematic review of treatments for infant colic. Pediatrics, 2000. 106(1 Pt 2): p. 184-90.

25. Bruyas-Bertholon, V., et al., [Which treatments for infantile colics?]. Presse Med, 2012. 41(7-8): p. e404-10.

26. Metcalf, T.J., et al., Simethicone in the treatment of infant colic: a randomized, placebo-controlled, multicenter trial. Pediatrics, 1994. 94(1): p. 29-34.

27. Alexandrovich, I., et al., The effect of fennel (Foeniculum Vulgare) seed oil emulsion in infantile colic: a randomized, placebo-controlled study. Altern Ther Health Med, 2003. 9(4): p. 58-61.

28. Savino, F., et al., A randomized double-blind placebo-controlled trial of a standardized extract of Matricariae recutita, Foeniculum vulgare and Melissa officinalis (ColiMil) in the treatment of breastfed colicky infants. Phytother Res, 2005. 19(4): p. 335-40.

 

 

Cólicas - o que são?

Quando é que desaparecem?

Tal como vêm, as cólicas também desaparecem, sem aviso, de um dia para o outro.

 

Os sintomas passam aos 3 meses em cerca de 60% dos bebés e em 80 a 90% aos 4 meses. No entanto, em alguns bebés os sintomas podem persistir até aos 6 meses e, em raros casos até aos 9 ou mais.

A dieta da mãe interfere!

Para bebés amamentados, existe evidência que a dieta da mãe tem impacto na severidade das cólicas. O leite de vaca e seus derivados foi identificado como uma causa importante de cólica em alguns estudos.[11, 12]

 

Alimentos a evitar pela mãe no bebé com cólica:

Uma dieta hipoalergénica, com restrição de leite e produtos lácteos, soja, trigo, ovos, amendoins, nozes e peixe pode reduzir significativamente o número de episódios de cólicas em bebés amamentados – um estudo recente identificou melhoria significativa das cólicas em 74% dos bebés após uma semana (em comparação com 34% no grupo controlo) e uma redução média diária de 90 minutos no choro.[13, 14] Outros alimentos a evitar incluem a couve-flor, repolho, brócolos, cebola e chocolate[15], bem como o café, álcool, comidas picantes ou muito condimentadas e bebidas gaseificadas.

 

Para os bebés que fazem leite adaptado, a mudança para uma fórmula hidrolisada pode ter impacto na redução dos eventos de cólicas.[5] Fale com o seu médico de família ou pediatra antes de tomar esta decisão.

CÓLICAS - AS CAUSAS

- Imaturidade do sistema digestivo

 

- Imaturidade do sistema nervoso

 

- Intolerância às proteínas do leite de vaca

 

- Intolerância à lactose

 

- Flora intestinal inadequada

 

- Técnica de mamada desadequada (com deglutição de muito ar)

 

- Exposição ao tabaco

 

- Hipersensibilidade do lactente aos estímulos prévios

 

- Resposta inadequada dos pais ao choro

 

- Conflitos familiares