Atraso da linguagem

Última revisão deste tema: 22/12/2015

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O que é?

É importante começar por algumas noções básicas. A fala é a produção verbal da linguagem. A linguagem é o processo conceptual de comunicação e inclui a linguagem recetiva (perceber o que é falado pelos outros) e a linguagem expressiva (capacidade de transmitir informação, sentimentos, pensamentos e ideias).[1,2]

Diz-se que uma criança tem um atraso na aquisição da linguagem quando a linguagem, ao nível da compreensão e/ou expressão, não surge na idade em que deve ocorrer.

 

Qual é a sua prevalência?

A prevalência atinge cerca de 3-10% das crianças, conforme as idades e os estudos.[1,3,4]

Um estudo americano realizado a crianças de 3 anos encontrou prevalência de atraso do desenvolvimento da linguagem de cerca de 3% e a prevalência de perturbação específica da linguagem de 0,5-0,7%.

Um outro estudo americano realizado a crianças com 5 anos encontrou prevalência de atraso da linguagem de cerca de 7.4% (8% em rapazes e 6% em raparigas).

 

Qual a causa?

O atraso na linguagem pode ser devido a várias causas [1,2]. Pode ter uma causa primária (um problema do próprio desenvolvimento da linguagem) ou ser secundária a uma perturbação global do desenvolvimento (atraso mental, autismo ou paralisia cerebral), a problemas de audição e a disfunção do meio da criança. As causas secundárias têm sempre que ser excluídas.

 

Sendo um processo cognitivo complexo, problemas que tenham impacto no desenvolvimento cognitivo também causam um atraso no desenvolvimento da linguagem. Assim, a perturbação do desenvolvimento intelectual (previamente designado de atraso mental), em primeiro lugar, e as perturbações do espectro do autismo, em segundo lugar, são principais causas de atraso da linguagem.

 

De seguida, temos efetivamente problemas específicos da linguagem – as perturbações específicas da linguagem (PEL) – que condicionam um desempenho linguístico inferior ao obtido em outras áreas do desenvolvimento. Como já referido, as PEL são um diagnóstico de exclusão. As PEL englobam:

- Perturbação da fala. Inclui os domínios: produção dos sons da fala (conhecimento fonológico, controlo neuromotor e competência articulatória), fluência do discurso (capacidade de falar com fluência, padrões de tempo e prosódia normais), voz (controlo respiratório e adequação laríngea) e ressonância (adequação estrutural e funcional do palato duro e do palato mole).

- Perturbações de linguagem. Inclui: linguagem oral, linguagem escrita e outras modalidades de linguagem (por exemplo, gestual).

- Perturbações da comunicação. Inclui: compromisso da pragmática e dificuldades no uso social da comunicação verbal e não verbal.

 

Outras causas de atraso da linguagem são a surdez (suspeitado quando existem otites de repetição ou otite serosa) e disfunção no meio sociofamiliar.

 

 

 

QUADRO I. Quando e como suspeitar?

A linguagem é um processo complexo que se desenvolve desde o nascimento devendo atingir maturidade e independência com a criança capaz de comunicar de forma independente e ser percebida por todos aos 4 anos de idade. As diversas etapas da aquisição da linguagem estão bem estabelecidas e podem consultar nas nossas secções do desenvolvimento consoante a idade - 0-11 meses, 12-23 meses e 2-5 anos.

 

Deverá suspeitar de atraso no desenvolvimento da linguagem qualquer criança que apresente os seguintes sinais de risco, consoante as idades [1]:

 

12 MESES

Não responde à voz

Não entende ou reage às palavras “não” e “adeus”

Não aponta

Não gesticula, como como dizer adeus ou abanar a cabeça

Não balbucia como se estivesse a falar

 

15 MESES

Não olha ou aponta a 5-10 objetos ou pessoas nomeados pelos pais

Não usa pelo menos 3 palavras

 

18 MESES

Não cumpre ordens simples (por exemplo: “dá-me isso”, “vai ali”)

Não responde quando o chamam

Não vocaliza espontaneamente

Não diz “mamã”, “papá” ou outros nomes

 

2 ANOS

Não parece compreender o que se lhe diz

Não aponta a imagens ou partes do corpo quando nomeados

Não pronuncia palavras inteligíveis

Não utiliza pelo menos 25 palavras

 

2 ANOS E MEIO

Não responde verbalmente ou abana a cabeça em resposta a questões

Não utiliza frases com 2 palavras (inclui combinações não-verbais)

 

3 ANOS

Não entende preposições ou palavras de ação

Não cumpre ordens com 2 pedidos

Não utiliza pelo menos 200 palavras

Não pede as coisas pelo nome

Repete frases em resposta a questões (ecolália)

Não constrói frases

Não é compreendida pelos familiares

 

4 ANOS

Não é compreendida por todos (linguagem incompreensível)

Substituições fonéticas

Gaguez

 

EM QUALQUER IDADE

Regressão de competências

 

 

As perturbações do comportamento associam-se a outros problemas?

Sim. Existe associação com dificuldades de aprendizagem, perturbações do humor e do comportamento e dificuldades na interação social e mesmo inserção profissional.

 

Qual a evolução?

O prognóstico é muito variável e depende da idade de início da intervenção (quanto mais cedo a criança for intervencionada, melhores os resultados). Quando o diagnóstico é feito na idade pré-escolar, cerca de 37% das crianças recuperam antes dos 6 anos mas a maioria apresentará pequenos défices residuais detetáveis em testes de linguagem. [1,2,6] As perturbações da linguagem expressiva e da fala têm melhor prognóstico. As perturbações específicas da linguagem são um fator de risco para dificuldades na aprendizagem – perturbação específica da aprendizagem.

 

Qual o tratamento?

Como já referido o fator mais importante é o diagnóstico precoce. É fundamental excluir todas as causas secundárias, nomeadamente, o despiste de um défice auditivo deve ser feito por rotina. A intervenção deverá ser multidisciplinar e adaptada a cada criança e às suas limitações e dificuldades devendo incluir familiares e professores como facilitadores da comunicação.[6] A terapia da fala é efetivamente o pilar base do tratamento havendo lugar também a adaptações a nível escolar quando necessário. São utilizadas várias estratégias para melhorar a comunicação, incluindo a utilização de meios alternativos e/ou gesto. É importante prevenir e orientar os problemas emocionais que podem associar-se a uma perturbação da linguagem.

 

 

REFERÊNCIAS

1. McLaughlin MR et al. Speech and Language Delay in Children. Am Fam Phys 2011; 83(10): 1183-88.

2. Pires de Matos P. Perturbações do desenvolvimento infantil – conceitos gerais. Rev Port Med Ger Fam 2009; 25:669-76.

3. Tomblin JB. Prevalence of specific language impairment in kindergarten children. J Speech Lang Hear Res. 1997; 40(6):1245-60.

4. Stevenson J, Richman N. The prevalence of language delay in a population of three-year-old children and its association with general retardation. Dev Med Child Neurol 1976;18(4):431-441.

5. Sociedade Portuguesa de Neuropediatria. Atraso na linguagem. Disponível em URL: http://neuropediatria.pt/para-os-pais/atraso-na-linguagem (acedido em 22/12/2015).

6. Amorim R. Avaliação da criança com alteração da linguagem. Nascer e Crescer 2011; 20(3). Disponível em URL: http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?pid=S0872-07542011000300019&script=sci_arttext (acedido em 22/12/2015).