Alergia às Proteínas do Leite de Vaca

Última revisão deste tema: 12/02/2016

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O que é a Alergia às Proteínas do Leite de Vaca (APLV)?

A alergia alimentar é uma reação anormal do sistema de defesa do organismo às proteínas presentes nos alimentos. Em concreto, a Alergia às Proteínas do Leite de Vaca (APLV) resulta de uma resposta imunitária específica e anómala à exposição ao leite de vaca, principalmente às proteínas do coalho (caseína) e às proteínas do soro (alfa-lactoalbumina e beta-lactoglobulina).

 

A APLV é muito frequente?

A ocorrência de alergias alimentares tem vindo a aumentar ao longo dos anos em todo o mundo, com uma prevalência estimada de 6% em crianças com menos de 3 anos e de 3,5% em adultos.

A APLV é o tipo de alergia alimentar mais comum na infância. De acordo com a Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica aproximadamente 3% das crianças com menos de 3 anos têm APLV, reduzindo para <1% nas crianças com mais de 6 anos[1].

 

Quando surge a APLV?

A APLV pode surgir em qualquer idade. Habitualmente o início da alergia não está relacionado com a ingestão de leite de vaca propriamente dito, mas sim com um “contacto disfarçado” com as proteínas em questão. A sensibilização pode ocorrer através de contaminantes no leite adaptado usado como complemento ou em substituição do leite materno, ou mais tarde através de alimentos contaminados com proteínas de leite (ex.: papas, bolachas).

 

Como se suspeita de uma APLV?

A suspeita de APLV pode ser levantada pela presença de sintomas, que podem ser muito variados. O diagnóstico torna-se muitas vezes difícil, já que muitos dos sintomas podem ser fisiológicos ou estar mesmo associados a outras causas. Estima-se que até 17% das crianças com menos de 3 anos podem apresentar um ou mais sintomas sugestivos de APLVs. Perante a ocorrência dos sintomas listados no quadro seguinte, é recomendável procurar aconselhamento médico.

Para além dos sintomas, há que ter em conta história familiar de atopia (alergias diversas), a história alimentar da criança (se houve aleitamento materno exclusivo, aleitamento artificial ou misto), a idade de início dos sintomas e o intervalo entre a ingestão e o aparecimento dos sintomas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Só existe um tipo de APLV?

A APLV pode ser originada por vários mecanismos dentro do organismo.

Existem as reações alérgicas imediatas [mediadas por Imunoglobulina E (IgE)] e as tardias (não mediadas por IgE).

 

Reações mediadas por IgE ou Imediatas

Neste tipo de reação o organismo produz anticorpos específicos do tipo IgE contra as proteínas do leite de vaca. É uma reação tipicamente mais grave e mais persistente com o avançar dos anos. Como o próprio nome indica, os sintomas são “imediatos”, aparecendo de segundos até aproximadamente 2 horas após a ingestão do alimento. Os sintomas mais frequentes são: urticária, angioedema, vómitos e/ou diarreia e anafilaxia. Perante uma suspeita diagnóstica, pela ocorrência de sintomas e história clínica sugestiva, podem ser realizados vários exames auxiliares de diagnóstico como a pesquisa de IgE’s específicas no sangue (RAST) e na pele (prick tests).

 

Reações não mediadas por IgE ou tardias

Também denominadas “mediadas por células”, são reações em que o organismo não produz anticorpos IgE específicos, sendo a reação alérgica desencadeada por outras células. Neste tipo de reação os sintomas são tardios, podendo aparecer horas ou dias após a ingestão do leite/alimento. Habitualmente tem uma gravidade menor e há maior probabilidade de desenvolvimento de tolerância. Os sintomas mais comuns são: vómitos e diarreia tardios, sangue nas fezes, cólicas e irritabilidade, obstipação, atraso no desenvolvimento, fissuras anais. Não é possível diagnosticar este tipo de alergia a partir dos exames de sangue para determinação de IgE sérica específica (RAST), nem pelo teste cutâneo de hipersensibilidade imediata (prick test), uma vez que estes exames identificam apenas os anticorpos IgE. O diagnóstico nesse caso deve ser investigado com base na história clínica, na dieta isenta dos alimentos suspeitos seguida de um teste de provocação oral.

 

Reações Mistas

Algumas crianças podem apresentar os dois tipos de reações, denominadas como manifestações mistas. Nestes casos, podem surgir sintomas imediatos e tardios à ingestão do leite. Os sintomas mais comuns neste caso são: dermatite atópica moderada a grave, asma, refluxo gastro-esofágico, inflamação do esófago (esofagite eosinofílica), inflamação do estômago (gastrite eosinofílica), diarreia, vómitos, dor abdominal e atraso de crescimento[S1] .

Como é possível fazer o diagnóstico da APLV?

O diagnóstico da APLV deve ser realizado em 4 etapas:

1) História clínica

2) Exames laboratoriais (análises de sangue e/ou testes cutâneos)

3) Dieta isenta das proteínas do leite
4) Teste de Provocação Oral (realizado habitualmente no Hospital, num meio controlado)

 

Na maior parte das vezes a exclusão das proteínas do leite de vaca da dieta é suficiente para a regressão dos sintomas e muitas vezes confirma o diagnóstico. Porém, no caso das reações tardias, os sintomas podem demorar até 4 semanas para apresentarem uma melhoria significativa[S2] .

 

APLV e Intolerância à Lactose são a mesma coisa?

Uma Hipersensibilidade ou Alergia alimentar constitui um conjunto de reações adversas a alimentos, pela sua ingestão, contacto ou inalação, de patogenia imunológica comprovada. A Intolerância a alimentos é a resposta anormal a um alimento ou aditivo alimentar que ocorre em alguns indivíduos, em que não existe ou não se demonstrou um mecanismo imunológico.

A intolerância à Lactose é decorrente da dificuldade do organismo em digerir a lactose (um açúcar do leite), devido à diminuição ou à ausência de lactase [S3] (enzima que a digere). É uma síndrome clínica em que ocorre um ou mais dos seguintes: dor abdominal; diarreia; náusea; flatulência e/ou eructações frequentes após a ingestão de lactose ou de alimentos que contém lactose. A quantidade de lactose que causará sintomas varia de indivíduo para indivíduo, depende do grau de deficiência de lactase e a forma (alimento) em que é ingerida[2], [3].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Qual o tratamento da APLV?

O único tratamento comprovadamente eficaz é a dieta isenta das proteínas do leite, pois ao deixar de consumir o alimento que causa a alergia o sistema imunitário da criança não irá produzir as células e anticorpos responsáveis pela reação alérgica, possibilitando a remissão dos sintomas e o desenvolvimento futuro de tolerância ao leite[4].

Alguns medicamentos podem ser prescritos para aliviar os sintomas, principalmente na fase inicial e/ou em caso de ingestão acidental do alimento. Caso a criança tenha desenvolvido uma reação anafilática é importante que a criança e a família possuam e saibam utilizar uma “caneta” autoinjectável de Adrenalina.

Os medicamentos não tratam a alergia e não substituem a necessidade da dieta!

A prescrição da dieta parece algo simples. Mas, garantir à criança uma alimentação saudável, eficaz para o tratamento da APLV, nutricionalmente completa, que não a exclua do convívio social, com um custo acessível e ainda manter a harmonia familiar ao mesmo tempo não é nada fácil.

A dieta da criança com APLV deve ser isenta de alimentos que possuam as proteínas do leite[5].

As principais recomendações internacionais para o tratamento da APLV, e a prevenção do desenvolvimento de nova patologia alérgica em crianças de risco, consistem em:

- Aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida ou, alternativamente,

- Uso de Fórmulas hidrolisadas

- Suplementação com Pré-bióticos e Pro-bióticos

- Tratamento com imunoterapia específica de alergénios inalantes (subcutânea ou sublingual)

 

Segundo a Academia Americana de Pediatria[6], as recomendações para tratamento da APLV são as seguintes:

1. O Leite Materno é a melhor fonte nutritiva para as crianças ao longo do primeiro ano de vida. As crianças amamentadas que desenvolvem sintomas de alergia aos alimentos podem beneficiar de:

              - Restrição materna de leite de vaca, ovo, peixe e frutos secos e, se isto não for suficiente,

              - Utilização de uma fórmula Hipoalergénica (extensamente hidrolisada ou, se os sintomas alérgicos persistirem, fórmula de aminoácidos livres) em alternativa ao leite materno.

              - As crianças com sintomas IgE associados podem beneficiar com a utilização de uma fórmula de soja (como tratamento inicial ou após 6 meses de utilização de uma fórmula hipoalergénica).  

 

2. Crianças alimentadas com Leite Adaptado com APLV confirmada podem beneficiar da utilização de fórmula hipoalergénica ou de soja.

 

3. Crianças com elevado risco de desenvolver alergia, com história familiar forte (biparental ou irmãos) podem beneficiar de Aleitamento materno exclusivo ou fórmula hipoalergénica ou, possivelmente, uma fórmula parcialmente hidrolisada.

               - O Aleitamento materno deve ser mantido durante o primeiro ano de vida. Durante este período, para as crianças em risco, as formulas hipoalergénicas podem ser utilizadas como suplemento.

               - As mães devem eliminar da sua alimentação os frutos secos e podem considerar eliminar ovos, leite de vaca, peixe.

               - Alimentos sólidos não devem ser introduzidos na dieta das crianças em risco antes dos 6 meses, os produtos contendo leite devem ser atrasados até ao ano de idade, o ovo até aos 2 anos e os frutos secos e o peixe até aos 3 anos de idade.

 

Se o meu filho tem APLV, posso dar-lhe Leite de Soja?

O leite de soja não é, em termos nutricionais, equivalente ao leite materno ou leite de vaca. A designação de “leite” a este alimento é, por isso, enganadora. Segundo as Guidelines de 2012 da Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica as fórmulas de soja só devem ser utilizadas sob circunstâncias específicas como Galactosemia e Intolerância persistente à lactose. Em crianças com APLV, as fórmulas de soja podem ser usadas a partir dos 6 meses, apenas após um teste de provocação às proteínas de soja. Em relação às crianças com sintomas gastrointestinais não IgE mediados (proctocolite ou enterocolite) verifica-se que cerca de 50% apresentam alergia concomitante à soja. Sendo assim, nas crianças com Enteropatia documentada por APLV a fórmula de soja deve ser evitada.

 

Afinal, como posso criar uma dieta sem proteínas do leite de vaca?

Primeiro que tudo, é necessário que conheça aqueles alimentos e ingredientes que devem ser evitados. Para isto é fundamental que saiba ler corretamente os rótulos dos alimentos. Desta forma irá começar a perceber quais os alimentos que devem incorporar a sua nova rotina, quais as preparações que poderão substituir as suas receitas habituais e como será a sua nova lista de compras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A APLV pode ser curada?

Não existe cura para a APLV. Contudo, existem vários estudos que mostram taxas de resolução espontâneas muito variáveis (19 a 97%). O prognóstico é variável dependendo de cada criança, do tipo de reação imune e da gravidade dos sintomas. Encontram-se relatadas taxas de recuperação de 56% no final do 1º ano de vida, 77% aos 2 anos, 87% aos 3 anos, 92% aos 5 anos e 97% aos 15 anos de idade. As crianças com APLV não IgE mediada tem melhor prognóstico.

 

 

REFERÊNCIAS

[1]       S. Koletzko, B. Niggemann, A. Arato, J. A. Dias, R. Heuschkel, S. Husby, M. L. Mearin, A. Papadopoulou, F. M. Ruemmele, A. Staiano, M. G. Schäppi, and Y. Vandenplas, “Diagnostic Approach and Management of Cowʼs-Milk Protein Allergy in Infants and Children,” J. Pediatr. Gastroenterol. Nutr., vol. 55, no. 2, pp. 221–229, 2012.

[2]       “Alergia ao Leite de Vaca | Tudo sobre a APLV.” [Online]. Available: http://www.alergiaaoleitedevaca.com.br/. [Accessed: 09-Feb-2016].

[3]       M. B. Heyman, “Lactose intolerance in infants, children, and adolescents.,” Pediatrics, vol. 118, no. 3, pp. 1279–1286, 2006.

[4]       C. Rêgo, A. Teles, M. Nazareth, and A. Guerra, “Leites e Fórmulas Infantis : a realidade portuguesa revisitada em 2012,” Acta Pediátrica Port., vol. 44, no. 5, pp. S50–S93, 2013.

[5]       Y. Vandenplas, E. De Greef, and T. Devreker, “Treatment of Cow ’s Milk Protein Allergy,” Pediatr Gastroenterol Hepatol Nutr, vol. 17, no. 1, pp. 1–5, 2014.

[6]       Committee on Nutrition American Academy of Pediatrics, “Hypoallergenic Infant Formulas,” Pediatrics, vol. 106, no. 2, pp. 346–349, 2000.